Num mundo perfeito
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Texto por Pedro Aniceto | Reflexões de um cão com pulgas (Blogue) | Twitter
Num mundo perfeito as apresentações são sempre boas, os apresentadores
chegam aos eventos a horas, apresentam-se extremamente bem vestidos, trazem
temas interessantes que deixam o público a salivar por mais, têm slides
criados expressamente por designers de nomeada aos quais ninguém liga
nenhuma porque o conteúdo da sessão é avassalador.
Num mundo perfeito os organizadores convidam os oradores alguns meses antes
dos eventos, "fecham" os programas a poucas semanas das datas, enviam os
horários dos slots aos oradores a tempo e horas e nunca, mas nunca se
esquecem de indicar as coordenadas GPS do local da sala.
Num mundo perfeito os oradores têm pilhas novas nos seus comandos remotos,
nunca se esquecem de regular o som da sua própria máquina antes da
apresentação começar, dominam na perfeição os timings dos seus slides e caso
não usem comando remoto nunca estão a mais de um metro do computador.
Num mundo perfeito as pessoas da plateia não têm os telemóveis ligados
durante um evento, o apresentador não precisa de pedir aos espectadores que
lhes desliguem o som, não precisa de de se envergonhar porque o seu próprio
telefone toca durante a sua própria apresentação.
Num mundo perfeito, os meus slides são brancos quando a sala é escura, e
negros quando a sala é clara. Num mundo perfeito tudo corre maravilhosamente
bem, ninguém abandona o seu lugar a meio da sessão, ou discute com a vizinha
do lado onde é que vão logo à noite e há sempre quem levante o braço na
sessão de Q&A. Num mundo perfeito o público não tem consigo sacos de
plástico daquele que faz um barulho irritante que desconcentra o orador.
Mas, grande novidade, o mundo não é perfeito... Nem sempre tudo corre bem,
nem sempre as apresentações são maravilhosas e pouco se fala dos grandes
desastres que podem suceder a um apresentador, É pena. Pena porque, para lá
de sorrirmos apenas com as desgraças dos outros, também podemos aprender
algo com elas.
Há quase vinte anos que subo a palcos para apresentações e não há uma única
vez que, apesar de rever os mandamentos da minha bíblia de apresentador (que
um dia, quem sabe, editarei na forma de opúsculo minúsculo...), não haja
algo que não faça soar aquela campainha de alarme que todos os
apresentadores têm dentro de si.
Sim, já sofri um acidente de média gravidade em palco, um corte profundo
numa mão enquanto apresentava um equipamento que tinha de abrir durante esse
evento e que tinha recebido poucas horas antes sem oportunidade de
experimentar. (O que me ensinou que tudo, mas mesmo tudo, tem de ser testado
antes, nem que seja a minutos do evento).
Sim, já vi um apresentador cair de um palco abaixo numa sala mal iluminada,
engolido por um alçapão de ponto. (O que me explicou porque é que alguns dos
grandes monstros da apresentação se regem por pequenas fitas coloridas
coladas no chão do palco que lhes mostram os limites e lhes permitem, com
toda a confiança, recuar ou avançar por todo o palco sem nunca virar costas
à plateia...).
Sim, já se me incendiou um equipamento durante uma apresentação pública. Por
culpa exclusivamente minha, dado que insisti em efectuar uma manobra com o
mesmo, manobra essa que eu mesmo sabia estar proibida. Arrisquei e correu
mal. Não há grandes lições a tirar de um incêndio em palco, se exceptuarmos
manter a calma e não entrar em pânico a pensar que toda a restante sessão
estará comprometida. Tinha outro equipamento igual debaixo da mesa. Foi só o
tempo de deixar desaparecer o fumo e dizer à imprensa que tinham ali uma
primeira página relativa à cobertura do evento...
Sim, já fiquei "preso" num palco durante quarenta e cinco minutos, sem mexer
um pé que fosse, junto ao púlpito. Preso porque não testei previamente o
local (um piso de mármore) e o meu calçado, uns belos sapatos de vela,
faziam guinchos horríveis que em conjunto com o microfone de lapela
transformavam cada passo meu numa espécie de National Geographic...
Sim, já voei dois mil quilómetros para chegar ao meu destino sem um
conversor VGA que ficara em minha casa. Com um equipamento novo, de
tecnologia diferente do comum, sem possibilidade de o ligar a um projector
de video...
Sim, já interrompi uma apresentação para que duas senhoras conversassem à
vontade enquanto mostravam uma à outra, do interior de dois sacos de
plástico daqueles que irritam mesmo quando lhes mexemos, a lingerie comprada
numa grande superfície...
Sim, já tive uma apresentação com dois espectadores a chegar praticamente a
vias de facto por causa da disputa de uma cadeira.
Sim, os mundos perfeitos não têm gracinha alguma...
