Para quando a portabilidade do meu perfil do Facebook?
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Por Vânia Gonçalves
Investigadora na área de Media, Market & Innovation na Universidade de Bruxelas
Responsável, desde 2010, pela organização do evento "Portugal Girl Geek Dinners"
Para quando a portabilidade do meu perfil do Facebook?
Nas últimas semanas e meses, muito se tem falado e escrito sobre as mudanças às configurações e política de privacidade do Facebook. Houve até quem escrevesse sobre fechar permanentemente a sua conta no Facebook, sendo que o protesto insurgia-se contra a forma como o Facebook parece não respeitar a informação pessoal de cada utilizador. De uma forma ou de outra, a maioria dos utilizadores de redes sociais apercebe-se deste arresto da sua vida pessoal, do seu dia-a-dia e até mesmo dos seus amigos.
Mas porque é que os utilizadores preferem, mesmo assim, manter o seu perfil numa e, até mesmo, em várias redes sociais semelhantes? A maioria dos utilizadores entusiasmados utiliza a rede que os seus amigos usam. Se os amigos começam a utilizar o Linkedin, o utilizador instala-se no Linkedin. Se os amigos começam a utilizar o Twitter, o utilizador instala-se no Twitter. E assim, para cada nova rede social, o utilizador vai construindo o seu perfil e a sua rede de contactos. Sem se aperceber, o utilizador fica locked-in na rede de contactos que construiu.
O custo de abandonar completamente uma rede social acarreta começar de novo, isto é, voltar a construir a sua identidade, a forma como se apresenta ao mundo, partilhar nova informação e, acima de tudo, recriar e fazer crescer a sua rede de contactos numa nova rede social. Na maioria das vezes o utilizador não abandona a rede porque as barreiras para sair são muito elevadas. Isto é, mantém toda a informação sobre a sua identidade, mas perde o interesse na rede social e usa-a cada vez menos, até ao dia, em que já nem se lembra do nome da mesma.
Existe alguma solução para, por um lado, reduzir o sentimento de lock-in dos utilizadores e, por outro, aumentar o sentimento de controlo da informação?
Para o grupo de utilizadores que se insurge constantemente contra as políticas de privacidade da rede social a que pertence, a única solução parece ser tomar o controlo da sua informação e do que é partilhado com outros.
Exemplo de uma iniciativa neste contexto é o projeto Diaspora, iniciado em 2010. Considerado por muitos como o Anti-Facebook, este projeto oferece uma alternativa às atuais redes sociais. O seu objectivo consiste em permitir aos utilizadores criar a sua própria rede social e manter a propriedade de toda a informação, como a informação do perfil, amigos, mensagens, fotos, e controlar facilmente com que é que essa informação é partilhada.
O código do Diaspora é aberto e qualquer utilizador pode fazer download e instalar o seu servidor de Diaspora. Apesar de não ter atraído a atenção do público em geral, o projeto Diaspora está a ser utilizador por muitas universidades e empresas para criar a sua rede social interna, assim, como comunidades de utilizadores mais técnicas.
Para o grupo de utilizadores que gostaria de saltar de rede em rede mais facilmente, não há propriamente uma solução que permita facilmente exportar a informação duma rede social para outra. Se tomarmos como exemplo a liberalização do sector das telecomunicações, a regulamentação forçou os operadores incumbentes a “dialogarem” com os novos operadores. Isto é, não só forçou que os utilizadores de diferente operadoras pudessem falar entre si (interconexão), mas também facilitou a mudança entre operadores, podendo o utilizador manter o seu número via a portabilidade do número.
São exatamente estas características que estão a faltar nas redes sociais: sejam elas mais abertas ou fechadas, disponibilizando APIs ou não, não há maneira de estar no Google+ a ver um perfil do Facebook ou de exportar o perfil do Linkedin e importá-lo no Facebook.
É claro que facilitar estas funcionalidades não vai ser simples passando possivelmente, da mesma forma que nas telecomunicações, pela standardização da interconexão da comunicação entre serviços e da troca de informação, assim como da portabilidade dos dados do perfil dos utilizadores.
É claro que tornar as redes sociais mais abertas não parece algo que o Facebook e Google estejam interessados em fazer de sua livre iniciativa. Será que vamos chegar ao ponto de regulamentar estes serviços na Web? Parece que já estivemos mais longe disso! De facto, pelo menos a nível Europeu, há uma crescente preocupação com as questões de privacidade e transparência das redes sociais perante os seus utilizadores.
O programa ambicioso da Comissão Europeia denominado Digital Agenda está focado em aumentar a competitividade do mercado digital, em tornar os serviços Web mais abertos e promover a confiança e proteção da privacidade online dos utilizadores. Será que promover a portabilidade dos perfis nas redes sociais vai fazer parte de medidas num futuro próximo?
